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O que a vida te deu e o que vai fazer com isso?


"Se a vida te der um limão, faça uma limonada!"

No primeiro episódio de This is Us, uma das séries que mais gosto, somos apresentados ao momento de nascimento dos protagonistas do show. Sem dar spoiler (assista a série, que é incrível), quero ir direto ao forte ensinamento que temos ao fim desse episódio piloto. A lição nada mais é do que uma versão do bom e velho ditado que citei no início deste texto. 

É bem verdade que nossos limões são diferentes, assim como nossa tolerância ao azedo e amargo. Você e eu somos ímpares, eis o fato. Mas o que importa é a essência do ensinamento, que está no aproveitar o que há de ruim, para fazer disso algo bom. Ressignificar nossos momentos de dificuldade, nossas perdas, tristezas, desilusões e frustrações, não é tarefa simples. Transformar tudo isso em algo bom, inclui dificuldades que a maioria de nós não está preparado para enfrentar. Ou seja, já na ideia de aproveitar nossos limões, temos um baita limão nos aguardando. É óbvio que superar uma dificuldade já é dificultoso em si. Temos mais facilidade em contornar os problemas do que em resolvê-los. Não a toa, algumas pessoas pegam os limões que a vida lhes dá e simplesmente os joga fora. Talvez seja mesmo mais fácil seguir em frente e torcer para não morrer de sede, do que ter todo aquele trabalho de fazer a limonada. O mundo é grande demais, e nele temos pessoas de todos os tipos, com todas as ideias, pensamentos e visões possíveis. Pessoas com os mais diversos traumas e cicatrizes, muitas delas se machucaram exatamente enquanto tentavam transformar seus limões em algo melhor. Por tudo isso, até tenho dificuldades em simplificar a receita apenas à limonada. Mas digo o que sei por experiência: VALE A TENTATIVA. Por você e pelos que ama.

Durante essa quarentena, passei por dias difíceis. Os limões foram chegando até mim aos montes, sem parar. O mais chato de tudo foi perceber que alguns deles, eu mesmo plantei e cultivei. Um dos mais azedos e amargos, provei quando fui tentar enfrentar um monstro que muitos de nós evitamos, o de lidar com nossos defeitos, no meu caso o de ser super indeciso e por vezes até omisso. A vida toda, sempre fui uma daquelas pessoas cheia de dúvidas, totalmente inseguro para tomar decisões. Sei que muitos são assim, mas comigo isso era algo agudo, que afetava desde importantes escolhas como a de qual faculdade fazer e que carreira seguir, até as "Impossíveis-questões-cotidianas", aquelas de escolher o sabor do sorvete ou da pizza, a cor da camisa, o lugar de sentar à mesa e coisas do tipo (sim, essas definitivamente são decisões muito importantes). Nada, nenhum teste de A versus B passava por mim facilmente. Tudo gerava dúvidas, reflexões e listas de prós e contras. Nisso, ia um gasto de energia enorme, ou simplesmente uma abdicação da escolha. Entre A e B, acabava ficando com C (não tentar, desistir, deixar para depois), para não me comprometer.

Para muitos, isso pode nem parecer um defeito dos mais graves. Sim, é verdade, há piores. O mundo está cheio de pessoas más, com claudicâncias nocivas aos outros, e não só a si próprio. Mas para mim, isso sempre foi uma questão não resolvida, algo que sempre me pegou, tirou-me algumas noites de sono, me deixou ansioso e inseguro, com medo do que essas escolhes (ou a ausência delas) poderiam me gerar. Porém, evitava encarar essa questão por saber que para mudar, seria necessário encarar também o estrago que esses anos de dúvidas fizeram em mim. Lidar com isso, exatamente no momento em que outros limões estavam em minha mesa, não foi fácil. Conceber a ideia de que essas dúvidas me fizeram perder tempo, coisas, experiências e até pessoas, é algo que pode doer, mas que tive de aceitar para aprender. No processo descobri que Clarice estava certa quando disse que cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, já que nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. E assim, enfrentar esse defeito me escancarou tantos outros, expondo-me a mim mesmo. Percebi então: sou mais imperfeito do que imaginava, e até a minha visão de mim mesmo, imperfeita era. Foi como abrir o quartinho da bagunça, aquele para onde jogamos tudo aquilo que não queremos ver, e descobrir que para organizar e limpar tudo, daria bastante trabalho e levaria muito tempo. Mesmo assim, encarei a tarefa e aceitei o desafio. Fiz pelos que amo, para me tornar uma pessoa melhor para eles, mas principalmente para ser melhor àquela pessoa que deve ser a mais importante para mim: eu. Abracei a mim mesmo, reconheci o que estava errado, passei a entender a origem de meus defeitos e como poderia lutar contra eles.

Não, de forma alguma já resolvi todas as minhas questões. O que fiz foi reconhecê-las e encará-las, em vez de apenas jogá-las de volta ao quartinho da bagunça. E isso é apenas o início, depois vem a luta diária contra esses defeitos. Sei que alguns dias vou perder essa batalha, e que contra uma parte deles provavelmente eu nem consiga lutar. Mas amadurecer talvez seja isso, se conhecer, saber o que em nós pode ou não ser "resolvido" e entender que está tudo bem quanto às "irresoluções".  É o que somos! Nossos defeitos não nos definem (ou não deveriam), mas sim nossas qualidades e virtudes. Tenho olhado com mais carinho para aquilo de bom que há em mim.

Contra a minha indecisão, busco fazer minhas escolhas o mais rápido que posso, mas sem abandonar a análise, sem ser negligente, ou então, de um defeito passaria à outro, o de ser inconsequente. Só não quero mais, entre A e B, escolher C. Quero optar por A e não imaginar o que poderia ter acontecido se tivesse preferido B, pois a verdade é que já não importa, a escolha foi feita e só preciso aceitá-la ou esperar a próxima oportunidade de tentar mais uma vez, afinal a vida dá chances vez ou outra. Nem sempre é fácil escolher, mas penso que algum dia será.

Como Clarice previu, realmente, meu edifício ruiu. Mas do chão pude me reconstruir, fazendo uma estrutura mais sólida, baseada no que há de melhor em mim. Aproveitei e refiz minha planta inteira, sem aquele quartinho, pois não preciso mais dele. Isso é uma excelente limonada, que saiu de um limão bem azedo e amargo. Do meu pior defeito, consegui tirar algumas boas lições. E você, o que vai fazer dos seus limões?



Ps1: A Clarice em questão é a Lispector, chamo-a apenas pelo primeiro nome. Isso é intimidade, não liga não.
Ps2: Sim, é realmente da Clarice a frase citada (em Correspondências). Não é mais uma daquelas frases que referenciam à ela, quando na verdade a escritora nunca falou.

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