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rafaellinick
MEMÓRIAS: As boas e as ruins
Nossas memórias tem uma força enorme sobre a gente. Elas são capazes de teletransportar-nos instantaneamente para momentos específicos de nossas vidas, permitindo reviver situações que passamos e até sentir exatamente as mesmas sensações. O quão maravilhoso não é sentir um cheiro e ser imediatamente levado para aquele maravilhoso jantar? Quão boa é a sensação de ouvir uma música e lembrar de alguém que amamos? Podemos assistir um filme e memorar de algum bom momento de nossas vidas, ver um meme na internet e relembrar daquela crise de risos dada com alguém. Dá para olhar o banco de uma praça e logo lembrar que ali foi dado o primeiro beijo naquela paixão de adolescente. Também podemos comer algo e imediatamente reviver a sensação de provar da maravilhosa comida da vovó, além de ouvir falar de um lugar e rapidamente ser levado de volta àquelas férias incríveis. Basta sentir o cheiro de um perfume e de repente já se encontrar mentalmente envolto no abraço daquela pessoa tão especial. E assim, temos vários e vários bons exemplos de sensações despertadas graças a uma simples recordação.
Infelizmente, nem só de boas lembranças se faz uma mente humana. Não passamos pela vida incólumes (pelo menos até aqui ninguém conseguiu). Vivemos situações ruins, passamos por traumas, más experiências, perdemos coisas, pessoas que amamos e também tem tudo aquilo que é capaz de deixar lembranças negativas. Bom seria se todas as nossas memórias fossem compostas apenas de bons momentos. Mas assim como temos estímulos que despertam boas sensações, também temos aqueles que nos trazem algumas não tão boas assim. E acredito que o caminho para a felicidade passa por saber lidar com esses vestígios de nossos piores momentos, conseguindo enfrentá-los e superá-los.
Tenho uma experiência muito particular com os gatilhos que podem despertar uma lembrança negativa e seus sentimentos. Minha primeira experiência com a morte, foi durante o enterro de minha bisavó. Não lembro exatamente qual a minha idade na época, nem sequer lembro muita coisa daquele dia, para ser sincero. Eu era apenas uma criança, sem nunca ter vivido nada daquilo. O que recordo muito bem, é da energia das pessoas em minha volta, do seu luto e sentimento de tristeza. Era minha primeira experiência com tudo isso e só o que pude guardar foi toda essa melancolia da situação, além de uma coisa bem específica: o som das gotas de chuva batendo no guarda-chuva que estava sobre minha mãe e eu. Na cidade de Belém (PA) chove em quase todas as tardes, mas naquela tinha algo de diferente, que parecia associar o som das gotas com a tristeza do momento, de alguma forma que não sei explicar. E assim, um gatilho foi criado em minha mente. É claro que tardes chuvosas carregam um ar soturno por si só. Mas para mim, de alguma forma, estar sob um guarda-chuva ouvindo aquele som das gotas batendo no plástico, sempre me trazia um pouco daquela sensação de volta. Era uma lembrança que sempre me acompanhava, trazendo consigo os sentimentos do passado para o presente.
É senso comum o quanto ficamos reféns de algumas de nossas lembranças negativas. Por vezes até damos mais peso a essas recordações ruins, transformando-as em guias para nossas escolhas (ou para a ausência delas), nossos relacionamentos e nosso estado emocional. Por conta disso, ficamos paralisados pelo medo, perdidos, confusos e sem saber como reagir diante de determinadas situações, acreditando que aquela reminiscência é muito mais do que apenas uma imagem do passado, que não necessariamente irá nos acompanhar para sempre. Mas a verdade é que sim, é passado! Então basta deixá-la onde está, lá atrás. O escritor Paulo Coelho diz em uma de suas obras que nossas memórias amargas não podem nos aprisionar, pois elas fazem parte da nossa vida tanto quanto um sorriso, o por do sol, o instante de oração. E é realmente curioso que esqueçamos rápido nossas alegrias, enquanto fazemos com que o sofrimento dure bem mais do que o necessário.
Não vale a pena dar todo esse peso aos dias ruins do seu passado, transformado eles em um monstro capaz de medir forças contra você, seu presente e seu futuro. Então tire esse poder que deu aos seus traumas e não deixe que eles te controlem. Entendo que cada um tem seu tempo, seu próprio modo de superar, de buscar ajuda para enfrentar suas angústias e de tirar delas a influência que tem sobre si, então vai no seu tempo. Mas não abdique disso, não desista, não abra mão. Você merece ser feliz hoje, não somente amanhã, não depois, não quando acabar o ano, quando chegar aos 30, quando passar o inverno, não só quando se formar, só depois de casar, quando chegar ao cargo que deseja, quando tiver sua casa própria, quando fizer aquela viagem dos sonhos... Não! Sua busca por felicidade deve ser iniciada aqui, agora, no próximo segundo. Procure ser feliz hoje, com as coisas pequenas e boas que a vida tem te entregado. Transforme elas em suas lembranças mais preciosas. E sempre busque resolver na sua vida tudo aquilo que tem tirado a sua paz, pois não se chega ao "nirvana" tendo tantos conflitos pendentes e questões aguardando resolução. Sua harmonia interior é muito importante.
Com o tempo e vontade de mudar, pude lidar melhor com minhas lembranças trazidas pelo som do guarda-chuva. Aliás, agora até tenho um carinho especial por dias chuvosos e pelos sons que eles produzem. Hoje eu sei que lembranças ruins são só lembranças, não uma constatação do meu presente, tampouco uma previsão para o meu futuro. Bastou-me entender que, querendo ou não, tudo vai ficar apenas na lembrança, pois tudo vai passar. E é exatamente aí que está a beleza de tudo, na certeza de que é passageiro, e por isso deve ser aproveitado ao máximo. Podemos, então, usufruir o que é bom e saber que aquilo que é ruim logo vai passar também. Portanto, só nos resta escolher quais lembranças guardar e quais deixar ir embora. Guarde os bons momentos com carinho, pois eles são muito valiosos.
Então é isso, vamos em busca de novas memórias, sejam elas boas ou ruins. Vamos viver e só depois escolhemos o que deixar para trás e o que manter seguro em nossos corações.
E mais uma vez encerro um texto com um poema de Drummond. Mas o que posso fazer? O cara é incrível e eu sou um grande fã! Aprecie o trecho de Memória e até a próxima. Seja feliz... HOJE!
Então é isso, vamos em busca de novas memórias, sejam elas boas ou ruins. Vamos viver e só depois escolhemos o que deixar para trás e o que manter seguro em nossos corações.
E mais uma vez encerro um texto com um poema de Drummond. Mas o que posso fazer? O cara é incrível e eu sou um grande fã! Aprecie o trecho de Memória e até a próxima. Seja feliz... HOJE!
[...]
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
- Carlos Drummond de Andrade , "Poemas". Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959.
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