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rafaellinick
As cidades invisíveis
Quem me conhece, sabe da minha mania de metaforizar sobre praticamente tudo. É algo que facilita minhas explicações na maioria das vezes, mas complica em algumas outras, já que, em vez de favorecer a compreensão, a metáfora pode acabar abrindo espaço para uma infinidade de interpretações paralelas. Mas a verdade é que mesmo que eu fale da forma mais direta possível, no final sempre estarei refém do entendimento do outro. Então vejo as metáforas como uma forma de aproximar o que quero dizer, daquilo que será compreendido. Mesmo que não dê certo, é uma tentativa válida.
O uso de metáforas e alegorias é uma das características mais presentes nas obras de Ítalo Calvino. O cubano/italiano tem em suas obras uma forma de escrita que sempre amplia a compreensão, no sentido de abrir espaço para diferentes interpretações. Isso é algo que acho incrível, a capacidade que alguns autores tem para transformar suas obras em algo que pode ser entendido de diferentes formas e por diferentes pessoas. Mas Calvino vai além. A mudança de sentido em suas obras varia também com o tempo, não só de pessoa para pessoa. A cada vez que relemos, descobrimos uma nova interpretação para tudo aquilo que sempre esteve lá, escrito da mesma forma, e o que muda é apenas a nossa análise. O próprio autor, através de Marco Polo, personagem principal em As Cidades Invisíveis, relata a diferença entre o que é dito e o que pode ser entendido:
"Eu falo, falo, mas quem me ouve retém somente as palavras que deseja... Quem comanda a narração não é a voz: é o ouvido."
Em As Cidades Invisíveis, um dos meus livros prediletos, temos a obra de Calvino que considero a mais impressionante, por conter tudo aquilo que muito aprecio: pensamentos profundos, filosóficos e reflexivos, embalados em metáforas e alegorias. Ao relatar as viagens de Marco Polo por cidades bem especiais, o escritor consegue discutir com maestria a experiência e vivência humana. Apesar de curto, é um livro que fala sobre tudo o que importa. No obra, cada cidade visitada por Polo tem suas especificidades, com seus defeitos e qualidades. Algumas me deixam apaixonado, pensando "quero morar aí", enquanto outras apenas me fizeram querer distância. Também tem as cidades em que pude me reconhecer nelas, ou aquelas que se pareciam muito com pessoas que passaram ou que estão na minha vida. E assim, essas cidades e seus moradores sempre me ensinam algo, a cada nova leitura que faço.
Cloé é a cidade que sempre me remete àqueles que apenas nos imaginam e não se permitem nos conhecer. Aquelas pessoas que criam uma imagem nossa, que as vezes é negativa, outras idealizada, e tomam isso como o que somos de fato. Depois, não aceitam quem somos na realidade, por sermos: ou tão horríveis quanto nos imaginam, ou muito aquém do idealizado, o que, de qualquer forma, nos torna insuficientes aos seus olhos.
"Em Cloé, cidade grande, as pessoas que passam pelas ruas não se reconhecem. Quando se vêem, imaginam mil coisas a respeito umas das outras [...]. Mas ninguém se cumprimenta, os olhares se cruzam por um segundo e depois se desviam, procuram outros olhares, não se fixam."
Zora tem uma das melhores histórias dentre as cidades invisíveis. Talvez a personificação da soberba e vaidade. Calvino descreve uma cidade que muitos consideravam incrível, perfeita, com tudo no local certo, dentro de todos os padrões. Zora é o que é, sabe o que tem de bom e explora isso para se tornar acessível, fácil. É uma cidade que fica na cabeça, por parecer tão certinha e perfeita. Mas exatamente por isso, ruiu. Zora não se reformou, não se reinventou. Era feita para os outros, não para si:
"...obrigada a permanecer imóvel e imutável para facilitar a memorização, Zora definhou, desfez-se e sumiu. Foi esquecida pelo mundo."
Mas uma das principais cidades para mim, é Leônia. A cidade que, num gesto de apagar os vestígios de sua existência, transforma tudo em lixo, se desfaz e joga fora. Nessa cidade onde os lixeiros são acolhidos como anjos, tem-se a pressa em jogar fora, descartar, abrir mão. E assim, tudo logo vira "passado":
"A cidade de Leônia refaz a si própria todos os dias: a população acorda todas as manhãs em lençóis frescos, lava-se com sabonetes recém tirados da embalagem, veste roupões novíssimos, extrai das mais avançadas geladeiras latas ainda intactas, escutando as últimas lengalengas do último modelo de rádio."
Calvino retrata que a grande pergunta sobre Leônia, é se a verdadeira paixão de seus moradores é de fato o prazer das coisas novas e diferentes, ou se não seria o ato de expelir, de afastar de si, expurgar. Mas o que Leônia talvez não saiba, é que quando trata-se a própria história com uma liquidez e tamanha facilidade de transformar tudo em descartável, o que se faz é, na verdade, nunca superar o seu passado, já que ele sempre estará ali rodeando, pois ele era muito importante ainda ontem. Isso não é viver do novo, mas sim do antigo:
"O resultado é o seguinte: quanto mais Leônia expele, mais coisas acumula; as escamas do seu passado se solidificam numa couraça impossível de se tirar; renovando-se todos os dias, a cidade conserva-se integralmente em sua única forma definitiva: a do lixo de ontem que se junta ao lixo de anteontem e de todos os dias e anos e lustros."
Leônia é a cidade que parece ser descrita por Bauman. Lugar onde as pessoas não dão valor a nada, pois tudo e substituível. Cidade onde nada tem muita importância, já que amanhã será renovado, mudado, algo diferente, e então, de novo, nada continuará a importar, seguindo assim num ciclo em que nada faz sentido muito sentido. Leônia quer se desfazer de tudo o que passou, mas esquece que no fim ela é só o passado em si, pois não há futuro algum quando não se valoriza o presente.
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