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O Estrangeiro

O Estrangeiro, de Albert Camus, é um de meus livros prediletos. Nessa obra, acompanhamos um personagem um tanto alheio aos acontecimentos de sua vida. Isso é algo que permeia toda a história e que gera um impacto no leitor logo de cara, já nas primeiras linhas do parágrafo inicial. 

Mas, antes de falar do livro em si, é importante entender quem é seu autor, Albert Camus. Esse filósofo e escritor franco-argelino pode ser descrito como um exímio pessimista, ou talvez até como um realista que vai além do que se espera, podendo ser caracterizado como um niilista. Em O Mito de Sísifo, o autor inicia a obra dando sua verdade e expondo sua ideia: 

"Só há um problema filosófico verdadeiramente sério, e este é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não ser vivida, é responder a questão fundamental da filosofia."

Para Camus, a questão principal sobre a vida é saber se realmente vale a pena vivê-la. Embora maioria das pessoas pense que obviamente vale, o autor se sente confortável em levantar a dúvida. E isso pode ser impactante para muitas pessoas, um efeito que Camus geralmente cria em seus leitores: impacto. Em suas palavras e reflexões, sempre  camadas além daquela na superfície. Tudo isso é um convite para pensar sobre a vida e suas questões invisíveis, com as perguntas que nem sabemos que existem até nos depararmos com elas.

Em O Estrangeiro também temos um pouco desse mesmo impacto já nas primeiras palavras do livro. A história é de Meursault, a personificação da indiferença com o mundo em sua volta e seus problemas, sejam eles de situações cotidianas ou atípicas. Começamos o livro com a frase "Hoje minha mãe morreu, ou talvez ontem, não sei bem"Dificilmente o impacto de um filho que não consegue precisar se sua mãe morreu hoje ou ontem seja algo que afete apenas a mim. Mas até as pessoas mais frias, precisariam apenas terminar o primeiro capitulo para perceber que, de fato, Meursault não parece nada afetado pela perda da própria mãe (sua única família), muito menos com todo o resto que acontece com sua vida. E é essa a apatia que se segue por toda a história.

Da primeira vez que li O Estrangeiro, provavelmente eu era muito novo para entender do que se tratava. Minha ideia inicial era de que seu protagonista era só uma pessoa muito forte e resiliente, capaz de enfrentar as dificuldades de sua vida e superá-las sem se deixar abalar. Tinha a sensação de que ali tinha algo de muito inspirador, no qual poderia pegar para mim como exemplo a ser seguido, algo como "independente do que aconteça, nada vai me abalar". E não que eu tenha atingido o ápice da maturidade e do entendimento sobre a vida, mas após ter vivido um pouco mais desde aquela primeira leitura e ter passado por diversas situações da vida adulta, ao reler posso perceber que Meursault não era essa pessoa com total controle de si, que sabia gerenciar muito bem seus sentimentos. Ele, na verdade, não sabia bem o que sentia, ou simplesmente nem sentia de fato, o que, de qualquer forma, não me parece mais ser algo tão legal assim. Na adolescência, a ideia de ser blindados dos sentimentos é vista como algo incrível, mas a vida mostra o quão importante é sentir, além de aceitar e entender o que se sente. Não saber o que a gente sente dificulta nossa vida e nos afasta do caminho para a felicidade. Ninguém consegue ser feliz sem entender os próprios sentimentos; E o "não sentir nada", quer dizer que, além de não ter os sentimentos maus (o que até pode ser visto como algo bom), também significa não sentir todas aquelas boas emoções e vivências, que são a melhor parte da vida. Afinal, uma vida sem o sentir, independente de ser um sentimento bom ou ruim, pode mesmo ser considerada uma vida feliz? Como ser feliz sem viver ao menos algum momento em que se sente tristeza? Como sentir... sem sentir?

Apesar de todo o pessimismo, de todas as formas que se busca para não sentir, de todas as barreiras que as pessoas criam para não se envolver, de todas as dificuldades que se passa e de tudo o que enfrentamos, cada passo que se dá na vida é buscando ser feliz. Cada vez que se desiste de algo, é porque chega-se ao estágio de acreditar que não há como ser feliz ali, daquela maneira.

No fim, é tudo sobre felicidade. Cada decisão que se toma, cada escolha que se faz, cada semente que se planta, cada pessoa que deixamos para trás, cada momento em que abdicamos de algo, que buscamos fazer mais, quando acertamos ou erramos, é sempre tentando se aproximar da felicidade. Na arte é igual. Cada obra, cada livro, filme, poema, ou canção, cada quadro, peça de teatro, fotografia ou nas obras de Camus, é tudo sobre felicidade ou a ausência dela. O que nos mostra Camus, é alguém vazio de sentimentos, alguém que não é feliz, mesmo que não demonstre explicitamente sua infelicidade. Hoje, meu maior medo é me tornar essa pessoa, que é infeliz, ou que até é feliz, mas nem sabe. A pessoa que não é capaz de precisar aquilo que é mais pertencente a ela: seus sentimentos. 

Eu, infeliz ou feliz, quero entender o que sinto e ser livre para sentir. E você, é feliz? Infeliz? Você sabe a diferença?

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