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A chuva aqui dentro

Se as pessoas fossem chuva, eu seria uma garoa e ela um furacão.
- John Green (Quem é você, Alaska?)

Essa frase nos define? Por algum motivo difícil de explicar (ou talvez muito fácil), somos na mesma proporção bem diferentes e muito parecidos. Qualidades e defeitos que se complementam, de alguma forma. Como a tempestade e o chuvisco (um bom nome para um dog, anotado: Chuvisco).

Ainda me lembro da primeira vez que te olhei com olhos diferentes dos que via antes, diferentes do que olho qualquer outra pessoa do mundo. É um olhar só seu. Feito pra você, ao mesmo tempo que de ti ele é feito, como as gotas que formam a chuva, ou a chuva que gotas faz.

De todas as coisas que a chuva traz, o seu som sempre foi das mais fascinantes para mim. Seja no relento de uma tarde de verão, ou mesmo na torrencial que vem a cada novo inverno, temos uma melodia que sempre hipnotiza. Já escrevi aqui mesmo sobre minha experiência com o som que a chuva faz, quando suas gotas batem ritmadamente no guarda-chuva. Aquele tec-tec ininterrupto, no qual se pode viajar para qualquer momento da vida, visitando o passado, ou mesmo o futuro.

Apesar de até gostar da chuva, sabemos que nem sempre ela é boa, nem sempre chega no melhor instante. Precisamos estar preparados para isso, para o vendaval que chega quando não se espera, no momento onde só se queria um aquecido e seco dia de sol. E mesmo nesses dias mais difíceis, onde, encharcados, precisaremos mais ainda um do outro, saiba que estarei aqui para você, esperando pelo brilho do sol, que junto aos teus olhos compõem a cor mais bonita do universo. 

É como diz aquela canção Umbrella, da Rihanna:

Fiz um juramento, e vou cumprir até o fim.
Agora que está chovendo mais do que nunca,
Saiba que ainda teremos um ao outro.
Você pode ficar debaixo do meu guarda-chuva.

Embora sejam péssimos em uma tempestade, ainda assim o guarda-chuva é um abrigo que chega para lembrar que nenhuma chuva é eterna. Elas passam e logo fica tudo bem. E no fim, o que sobra é a chuva mais calma e tranquila, que vem para lavar a alma, trazer vida e regar sentimentos. E assim, ansioso fico pelo dia que poderei dizer que "choveu a noite toda e nem percebi, nos teus braços adormeci, e a tempestade já passou".

Fernando Pessoa também gostava de escrever sobre a chuva. Em muitos de seus poemas há uma definição certeira para o que se pode esperar de um dia chuvoso. Vocês dois tem a mesma capacidade de sempre escrever algo que fala comigo no íntimo. 

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.

- Fernando Pessoa (Poesias, 1933)

Sim, tenho muitas referências sobre o assunto. Talvez eu realmente goste muito de chuva, mas não tanto quanto de você. Se lá fora chove, aqui dentro chove também. Uma chuva de boas memórias que se criam, de momentos que ficam marcados, e também de sentimentos muito bons, todos eles despertos por você a cada nova vez que te vejo. 

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